A MÚSICA NA FACULDADE DE DIREITO DAS ARCADAS - Léa Vinocur Freitag - Professora (*)

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Categoria: Dicas e Fatos


Em nossos dias, quando advogados ou estudantes de Direito querem ouvir música, encontram à disposição sofisticados aparelhos e podem fruir os sons amplificados de CDs e apreciar óperas em DVDs. Mas nem sempre foi assim – houve um tempo romântico nas Arcadas, em que as repúblicas abrigavam poetas e músicos.

A vida literária, política e boêmia da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco foi um marco na história de São Paulo.

Suas repúblicas e serestas atraíram jovens talentosos, inclusive Carlos Gomes que, aos 23 anos, veio de Campinas para integrar-se a esse ambiente juvenil, compondo “Quem sabe” , em 1859 – o famoso “Tão longe de mim distante”, dedicado à amada Ambrosina. (**)

Do mesmo ano é o “Hino Acadêmico” , tão caro à Faculdade de Direito, com texto de Bittencourt Sampaio, o mesmo autor dos versos de “Quem sabe.” Era um sergipano que tocava violão e morava numa famosa república de estudantes.

Entre os jovens acadêmicos nesse ano de 1859 podemos citar: Campos Salles, Prudente de Morais, Teófilo Ottoni, Rangel Pestana, Bernardino de Campos, Couto de Magalhães, Américo de Campos, Salvador de Mendonça, Antônio da Silva Prado, Rodrigo Otávio, França Júnior, entre tantos outros.

Destaca-se ainda a presença de Castro Alves, cujos versos foram musicados em modinhas, como “O Gondoleiro do Amor”.

Brasilio Itiberê da Cunha é uma figura que merece ser lembrada nesse contexto. Nascido no Paraná, em Paranaguá, veio para São Paulo estudar Direito e seguiu a carreira diplomática. É autor da obra “Sertaneja”, elaborada entre 1863 e 1865, a primeira a utilizar um tema tradicional brasileiro em música erudita.

Outro compositor relevante, também ligado ao ambiente da Faculdade de Direito, é o norte-americano Louis Moreau Gottschalk, que veio ao Brasil em 1869, morrendo nesse mesmo ano. No curto período em que aqui permaneceu compôs a brilhante “Fantasia sobre o Hino Nacional, imortalizada por Guiomar Novaes.

Não se pode esquecer a família Levy, cujo pai, Henrique Luiz Levy, empreendeu, pioneiramente (1860), um estabelcimento comercial para a venda de partituras, como “Quem sabe” de Carlos Gomes. Era o ponto de encontro de artistas, estudantes de Direito e políticos.

O filho, Alexandre Levy (1864-1892), mesmo morrendo muito cedo, legou uma contribuição musical bastante significativa. Apesar do aperfeiçoamento em Paris, que permitiu um imenso leque de opções, Alexandre Levy retornou imbuído de uma estética nacionalista e foi pioneiro no aproveitamento de temas populares.

Luiz Levy(1861-1935) iniciou-se na carreira musical com o irmão Alexandre e contribuiu, junto com a família, para o desenvolvimento da vida musical paulista, participando dos principais espetáculos produzidos em São Paulo.

(**)Vale a pena recordar a letra:

Quem sabe.

“Tão longe de mim distante
Onde irá teu pensamento
Quisera saber agora
Se esqueceste o juramento
Quem sabe se és constante
S’ inda é meu teu pensamento.
Minh’ alma toda devora
Da saudade agro tormento.”
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Léa Vinocur Freitag é musicóloga, cantora, professora titular pela USP. Gravou o CD “ Sarau das Musas” – a canção brasileira nos salões – 1830-1930, em que canta inclusive obras de Carlos Gomes, como “Quem sabe”, “Conselhos” e “Suspiro d’alma”. O CD encontra-se à venda na Livraria Cultura.
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(Você já leu? Chegou no dia 21/03/03)

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