A DIREITA COM FOICE E MARTELO – Por João Gabriel de Lima (*)

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Categoria: Dicas e Fatos

O Vietnã é uma das cinco últimas nações comunistas do mundo. As outras são China, Cuba, Laos e Coreia do Norte. O nome oficial do país é República Socialista do Vietnã. É governado em regime de partido único. Nesta semana, li no jornal que o Vietnã é o país do mundo que mais aprova a economia de mercado. Fui conferir no site do instituto de pesquisas Pew. É isso mesmo: 95% dos comunistas do Vietnã são fãs do capitalismo.

Uma coisa é constatar um paradoxo diante de uma estatística. Outra bem diferente é percorrer o paradoxo a pé, de barco e de avião. No início deste ano, escolhi o Vietnã para passar minhas férias. Chegar a Hanói é como aterrissar em Moscou na época em que a Rússia era comunista. Por todo lado há bandeiras com a foice e o martelo. Nos muros e nas praças, há cartazes ao velho estilo do realismo socialista. Exaltam os feitos dos trabalhadores e camponeses. Denunciam os horrores do imperialismo. Em Hanói, esses cartazes estão na moda. Decoram danceterias e cafés para jovens - um dos cafés mais populares se chama justamente "Propaganda". Os restos mortais de Ho Chi Minh repousam num mausoléu grandioso. Todos os anos, sua múmia é mandada a Moscou para manutenção. De lá volta robusta, corada, com a barba penteada.

De tempos em tempos, o governo socialista faz pesquisas para aferir a vontade popular. Há alguns anos, perguntou se os vietnamitas queriam educação melhor, saúde melhor, um sistema de transporte melhor - ou impostos baixos para que cada um pudesse abrir sua lojinha. Ganhou a última alternativa. O Vietnã se tornou um paraíso do empreendedorismo. Na belíssima cidade de Hoi An, uma espécie de Paraty do Vietnã, as pessoas moram dentro de suas lojas. Elas praticamente não fecham. Quem passa numa farmácia às 11 da noite vê, atrás do balcão, o dono e sua família em plena refeição, diante da TV. Se o turista fizer a menor menção de entrar, o dono interromperá o jantar para não perder a venda.

Qual a moral dessa história? Quando conto minha viagem, alguns lembram os altos índices de crescimento do Vietnã. Argumentam que regimes de força nem sempre são ruins - algo que me arrepia, pois sou democrata e liberal. Outros exaltam a capacidade de trabalho do povo vietnamita. Dizem que os brasileiros, que protestam por melhor transporte ou educação, são mimados. Será mesmo?

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EM HANÓI, CARTAZES DE PROPAGANDA COMUNISTA

SE MISTURAM A UM COMÉRCIO FRENÉTICO

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Por não ter ensino superior de qualidade, os vietnamitas suam para preencher os cargos de gerência nas indústrias que se mudam para lá todos os anos, atraídas por um "socialismo" em que direitos trabalhistas e benefícios sociais praticamente inexistem. Por causa da deficiência de transporte público, as cidades são poluídas e barulhentas. Sem ônibus, sem metrô, sem dinheiro para comprar carro, os vietnamitas ziguezagueiam em motonetas que não respeitam os sinais de trânsito. Ao tentar cruzar uma rua em Hanói, o turista se sente como Moisés na travessia do Mar Vermelho.

Entre rolinhos primavera e bolinhos de arroz com porco - delícias da culinária vietnamita -, fiz uma reflexão. Em cada país, nuances de esquerda e de direita podem se combinar de infinitas maneiras. O caso vietnamita é um paradoxo extremo - um país de esquerda na estética, de direita na vida real. Segundo esse pensamento, cada nação encontra uma vocação própria, de acordo com suas características culturais. Os partidos - quando existem, o que não é o caso do Vietnã - passam a gravitar em torno dessa vocação. Pergunte a um alemão se ele trocaria seus maravilhosos benefícios sociais por melhores condições para abrir lojinhas. A resposta seria um rotundo "nein!". Com a Suécia, a Alemanha é o berço da social-democracia moderna. Lá, nem a direita advoga corte de benefícios. De onde se conclui que, na Alemanha, até a direita é meio de esquerda.

O Brasil é um caso parecido. Na Constituição de 1988, decidimos que não queremos ser Vietnã, e sim Alemanha. Como não somos tão ricos quanto os europeus, sucessivos governos lutam para pôr em pé o ovo do crescimento econômico aliado a benefícios sociais. Nos últimos 20 anos, fomos governados por dois partidos que se intitulam de centro-esquerda e se dizem social-democratas. Com tudo de bom e de ruim que as duas siglas trouxeram para o Brasil, votamos em ambas, de novo, para o segundo turno destas eleições. Talvez estejamos mais contentes do que nós mesmos achávamos com o país, nós que saímos às ruas em junho do ano passado para protestar. Quase tanto quanto os vietnamitas. Segundo o mesmo instituto Pew, eles consideram que moram numa terra de oportunidades. PT e PSDB têm mais semelhanças que diferenças. Que os eleitos nesta semana consigam unir o país e tocar para a frente a agenda necessária para manter o Brasil no caminho certo. Dentro, claro, da vocação que escolhemos.

(*) João Gabriel de Lima - Diretor Adjunto - Época

Nota do Portal: Artigo publicado na revista Época – 27 de outubro de 2014 – pg. 91

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