SÃO PAULO FAZ ANOS. UMA REVERÊNCIA À CIDADE – SAUDOSAS LEMBRANÇAS - Crônica Por Rinaldo Carneiro (*)

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Categoria: Dicas e Fatos

 

 

Hoje (25/janeiro/2014) se comemora o aniversário de São Paulo, são 460 anos, sou um dos mais de onze milhões de moradores que aqui nasceram ou que foram recebidos de braços abertos nesta terra hospitaleira.

 

Vim para cá em 1965, há quase meio século. A população já era grande, a maior do Brasil, com pouco mais quatro milhões de habitantes. Morava na Afonso Brás, rua de classe média com casas simples e poucos prédios de apartamentos. Era próximo da Avenida Santo Amaro com calçadas largas, canteiro central ajardinado e trânsito relativamente tranquilo.

Contavam-se três cinemas nas proximidades e começavam a surgir os primeiros boliches, por sinal muito populares na época. Ali perto, na Avenida Ibirapuera, havia uma linha de bondes que ia de Santo Amaro à Praça João Mendes no cento da cidade, a qual, na direção do bairro passava por inúmeras chácaras.

Saí há muitos anos da rua Afonso Brás e ela faz parte do hoje importante bairro da Vila Nova Conceição com o metro quadrado residencial mais caro da cidade.

O Palmeiras, a “Academia”, brilhava na época, mas o Santos do Pelé era a grande estrela. Na música o jovem Roberto Carlos já era uma celebridade e começava a se ouvir falar de um grupo de quatro ingleses cabeludos. Caetano, Chico, Gil, Edu Lobo e outros apareceram pouco tempo depois com os Festivais da TV Record.

Não existia Avenida 23 de Maio, em seu lugar uma rua estreita, Itororó, cortava um brejo. A Iguatemi seria alargada para transformar-se na nova Avenida Faria Lima. As Marginais, Juscelino, Vereador José Diniz e muitas outras não passavam de projetos.

As obras do Metrô logo se iniciariam.

Na região central o melhor comércio era na Barão de Itapetininga e nas ruas próximas. As Lojas Mappin ainda eram uma referência. Na Marconi concentravam-se consultórios médicos. Nas avenidas São João e Ipiranga os grandes e luxuosos cinemas animavam a vida noturna do centro. No cruzamento do Anhangabaú com a São João havia uma passagem subterrânea apelidada de Buraco do Adhemar que inundava sempre que chovia forte.

Andava-se de paletó e gravata no centro da cidade. A Paulista ainda conservava algumas de suas imponentes mansões, circulavam bondes, os telefones da região eram caríssimos e as ligações se completavam com auxílio de telefonista.

A Augusta era a rua da moda com as grandes grifes e o comercio mais caro e sofisticado da cidade. Nela circulavam os jovens da classe alta e da não tão alta com seus carrões e belas companhias.

O Presidente da República era o general Castelo Branco e o governador era Adhemar de Barros. A recente mudança do regime fora apoiada e bem recebida pelo grande empresariado do Estado. Dos que discordaram pouco se ouvia falar.

A imprensa era relativamente livre, ainda não se falava em terrorismo e a repressão era uma pálida amostra do que viria depois.

O Quartel General do II Exército já mudara da Conselheiro Crispiniano, atrás do Teatro Municipal, para a região do Ibirapuera.

A migração de nordestinos se avolumava incentivada por oportunidades de trabalho oferecidas nas grandes obras urbanas que se multiplicavam e com a fartura de empregos para domésticas.

As favelas, consideradas pelos paulistas como coisas do Rio de Janeiro, já se multiplicavam. A cidade pouco a pouco ficava cada vez menos italiana.

Eu vinha do Rio de Janeiro. Tinha terminado a residência em clínica médica naquela cidade, no conceituado Hospital dos Servidores (IPASE) e trazia uma carta de apresentação do meu chefe, Prof. Aarão Benchimol, ao Prof. Luiz Decourt para frequentar o curso de pós-graduação em cardiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, considerado o mais avançado do país. Não existia ainda o INCOR. Na época a cirurgia cardíaca engatinhava. Não havia UTIs, monitoramento cardíaco, cinecoronarografia, ecocardiograma, teste ergométrico, eletrofisiologia, holter, Marca-Passos, cirurgias de ponte de safena, angioplastias.

A maior parte dos potentes medicamentos hoje ao nosso alcance para o tratamento do colesterol elevado, hipertensão arterial, doença coronária, insuficiência cardíaca, arritmias, diabete, etc., ainda não tinham sido criados. Na verdade o progresso extraordinário da cardiologia nas últimas décadas também ocorreu em todas as outras áreas da medicina.

Meu pai era paulista do interior (Eldorado Paulista, antiga Xiririca) e minha mãe paraense. Conheceram-se e casaram aqui transferindo-se depois para Belém, onde poucos meses depois aproveitei para nascer. Lá cresci, estudei e me formei. Após meu treinamento fiquei por aqui. Desenvolvi-me profissionalmente, trabalhei em vários hospitais, viajei pelo Brasil e pelo mundo, fiz e continuo fazendo grandes amizades. Em São Paulo conheci uma paulista, minha mulher, e aqui nasceram meus filhos e netos. Afinal de contas eu acabei retornando à cidade onde fui gerado.

Reclamo muito, me queixo, muitas vezes me sinto sitiado pela irracional violência que nos cerca. Já fui assaltado e até sequestrado, mas como os bons paulistanos continuo sem planos de morar em outro lugar, continuo reclamando e amando esta enorme cidade – A Paulicéia Desvairada do Mário de Andrade.

 


(*) - 25/Janeiro/2014 - Dr. Rinaldo Carlos Carneiro, médico, nascido em Belém do Pará. Autor do livro A árvore do conhecimento – Reflexão sobre as crenças Ed. Quartier Latin – Ed. 2009

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