Livro: OS FILHOS JOVIAIS DE SÃO FRANCISCO – A BUCHA - Por Sidney Gioielli (In Memoriam) (*)

Imprimir
Categoria: Dicas e Fatos

A indicação que o Portal do Sócio e da Sociedade, ora apresenta, e com relação a texto do Advogado Sidney Gioielli – de saudosa memória -, formado pela Faculdade de Direito da Universidade de Direito – USP – bem mais conhecida como a do Largo de São Francisco, decorre de pedido feito por um jovem casal de aplicados Advogados, acerca de história sobre A BUCHA.

E deve ser interessante, também, para muitos outros estudantes e advogados dessa tradicional Academia de Direito.

Antes, porém, vale ler a explicação da razão e finalidade desse especial livro como está na contracapa:

Em linguagem simples, o autor recorda passagens pitorescas de seus tempos de estudante do Largo de São Francisco (1950 - 1954).

O pendura, a peruada, as simuladas, o trote, o pique-pique e sua origem, os tipos curiosos que gravitavam em torno da Academia, estão retratados com leveza no livro, que ainda nos apresenta um breve histórico da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco (USP), a primeira escola de nível superior a instalar-se no país, simultaneamente com a de Olinda, em 1828.

O relato da fundação dos Cursos Jurídicos no Brasil não põe de lado uma sucinta análise da entidade secreta criada na Academia pelo enigmático Júlio Frank, a Bucha, de cujo seio saíram nada menos de que sete presidentes da Primeira Pepública.

Da Bucha, disse Getúlio Vargas a Adhemar de Barros, ao inteirar-se do enorme poder secreto dessa confraria: “Não se pode governar o Brasil sem essa gente”.

Como a finalidade é a apresentação da mencionada entidade, eis como o Autor a retratou.


A BUCHA

O mais eloquente gesto de solidariedade de Júlio Frank, no entanto, consistiu na criação da Bucha.

As Burschenschaften, a uma das quais pertencera Frank antes de sua vinda para o Brasil, vicejavam na Alemanha. Eram socieda­des de jovens - esse o seu significado em alemão - nascidas nas universidades daquele país, da ânsia de combater-se o absolutismo.

Não lhes faltava alta dose de filantropia, com a qual eram am­parados de forma discreta estudantes menos favorecidos.

Se a ideia de criar uma sociedade secreta nesses moldes era acalentada de há muito por seu fundador, a verdade é que ela so­mente se converteria em realidade a partir de 1831.

Nas "repúblicas" então existentes na cidade, os estudantes reuniam-se à noite para discutir seus problemas. Dentre estes, compreensivelmente, despontavam os de ordem financeira.

Esse aspecto parece ter gerado o impulso inicial da formação da Burschenschaft paulista que, por um óbvio comodismo prosódico, passou a ser chamada simplesmente Bucha.

Além da solidariedade e das ideias liberais que a Bucha abri­gava, seduziam os estudantes seu caráter secreto e seu ritual, her­dado esquematicamente da maçonaria, então em plena projeção no Brasil e na Europa.

A Bucha era formada por alunos escolhidos entre os que mais se distinguiam por seus méritos morais e intelectuais, não se apre­sentando eles à sociedade secreta, mas sendo por ela selecionados. Somavam, talvez, dez por cento do corpo discente e eram che­fiados por um "Chaveiro". Um "Conselho de Apóstolos" orientava a Bucha dentro da Faculdade, enquanto o "Conselho de Invisíveis", composto de ex-alunos, numa espécie de prolongamento da vida acadêmica, a aconselhava e protegia fora das Arcadas.

Suas reuniões secretas obedeciam a uma liturgia bem à feição das sociedades medievais de cavaleiros, com os bucheiros enver­gando vestes talares e faixas cruzadas sobre o peito, durante as sessões.

Nas faixas usadas segundo o grau de cada um, aplicava-se uma cruz azul representando a fé, ou uma âncora verde significando a esperança, ou ainda um coração vermelho, indicando a caridade.

O interesse pela Bucha ultrapassou as lindes da Faculdade de Direito de São Paulo, propagando-se para a de Recife, onde se fun­dou a Tugendbund e, mais tarde, para a Escola Politécnica de São Paulo, onde se criou a Landmanschaft (1895). A da faculdade de Medicina de São Paulo, Jungendschaft, é mais recente, datando de 1913.

A Bucha desbordou de seu propósito inicial de mera sociedade filantrópica de jovens liberais, convertendo-se, aos poucos, numa confraria que nem sempre soube distinguir entre o bem comum e os interesses de grupo. A distribuição de privilégios, na Faculdade e fo­ra dela, não estava certamente nas cogitações de seu fundador.

Por isso, é pouco provável que Júlio Frank tivesse proferido a frase que lhe atribuiu Afonso Schmidt, especialmente no tocante à sua última parte: "Os estudantes que continuarem na Escola se auxiliarão mutuamente; os que se formarem terão uma associação de ex-alunos e, mais tarde, poderão até governar o país”.

Não é verossímil que o mestre alemão pudesse prever o desdobramento admirável de sua ideia original, nem que se dispusesse a segredá-la - como quer Schmidt - a Arouche Rendon, que não foi sequer um dos iniciados daquela Ordem.

O mais razoável é que Júlio Frank entrevisse a projeção da sociedade que organizara, limitando-se, porém, aos seus futuros efeitos menores, despreocupado em "governar o país".

De qualquer forma, a Bucha viria contribuir decisivamente para a eleição de sete presidentes da República, abrigando em seu seio nomes como Rui Barbosa, Barão de Rio Branco, Afonso Pena, Prudente de Morais, Campos Sales, Rodrigues Alves, Venceslau Brás, Pedro Lessa, Bernardino de Campos, Washington Luiz, Altino Arantes, Júlio de Mesquita Filho, José Carlos de Macedo Soares, César Vergueiro, Spencer Vampré, Waldemar Ferreira, Rafael Sampaio e outras tantas figuras de realce na vida de São Paulo e da Nação.

O krausismo ­ expressão derivada do nome de Karl Krause, reputado estudioso das sociedades secretas alemãs - dominaria a cena política brasileira por muitos anos; e a reunião das diversas "buchas" paulistas haveria de influenciar diretamente nossos cos­tumes políticos, no curso de toda a Primeira República.

A decadência da Bucha acompanhou passo a passo a perda de substância da República Velha. A fundação da Liga Nacionalista e, subsequentemente, do Partido Democrático, por dissidentes da Bucha, veio acelerar o processo de deterioração desta.

A Revolução de 1930, que mereceu o apoio desses dissiden­tes, hostilizou ferozmente a Bucha, com os mais exaltados tentando até mesmo profanar o túmulo de Júlio Frank, como se o jovem pro­fessor alemão fosse responsável pelo desvio de propósitos que sua Ordem sofrera com os anos.

A Bucha, depois de todos esses percalços, acabou por refluir ao seu leito original, perdendo o condão de dirigir o pensamento po­lítico da nação.

Antes que isso pudesse acontecer, porém, ditou ela as normas partidárias do país por muito tempo, o que teria levado Getúlio Var­gas

a confidenciar a Ademar de Barros, quando tornou consciência do enorme poder secreto dessa confraria: "Não se pode governar o Brasil sem essa gente".

(pgs. 24-27)


Muitas outras passagens pelo livro trazem uma ideia da São Paulo antiga,

romântica, seus costumes, seus personagens e histórias encantadoras

descritas com profundidade e erudição. Sidney Gioielli encanta o leitor.

O Portal do Sócio e da Sociedade examinará a oportunidade de editar outras

partes desse majestoso livro.

ooooooooooooo

(*) Escrito e editado – 1992 - pelo autor, Sidney Gioielli (In Memoriam).

Texto preparado por Nívio Terra, Organizador do

Portal do Sócio e da Sociedade.

oooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

Contato

Nívio Terra - Advogado de Negócios e Consultor Pessoal
nivio@PortaldoSocioedaSociedade.com.br
nivio@terracpe.com.br

Credite a fonte

O CONTEÚDO DO PORTAL DESPERTOU INTERESSE, COPIE, MAS CREDITE A FONTE. SUA ÉTICA SERÁ O FISCAL DESTE PEDIDO.
Copyright 2011 Livro: OS FILHOS JOVIAIS DE SÃO FRANCISCO – A BUCHA - Por Sidney Gioielli (In Memoriam) (*) - Joomla