VOLTANDO À BELÉM - Por Rinaldo Carneiro (*)

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Categoria: Dicas e Fatos


Travessa Rui Barbosa, 583.

Era o meu endereço em Belém dos quatro aos onze anos. Próximo à Rua São Jerônimo, hoje Avenida José Malcher, a poucos quarteirões do Grupo Escolar Pinto Marques das primeiras letras e dos primeiros amigos. Um deles, Augusto, foi meu colega durante dezoito anos ininterruptos: no Grupo Escolar Pinto Marques, no Colégio Estadual Paes de Carvalho e na Faculdade de Medicina da Universidade do Pará.

Com alguns outros ainda mantive contacto por muitos anos. Na esquina a mercearia onde se faziam as compras com caderneta. Um pouco antes o talho (açougue) que também vendia açaí, que anunciava com uma bandeirinha vermelha. Ali o açaí era amassado manualmente, depois passamos a comprar em outro lugar onde amassavam com máquina. Tinha também uma padaria por perto com o pão “cacete” fresquinho o dia inteiro.

Um barbeiro com sua terrível máquina “0” sempre desamolada e o obrigatório corte militar. Meu irmão Sergio, que não era lá muito conciliador, uma vez desistiu da empreitada e voltou para casa com apenas metade da cabeça raspada. A vizinhança era toda conhecida e após o jantar, nas noites menos ventiladas, minha avó e minha mãe arrumavam cadeiras na calçada para uma deliciosa confraternização.

Mais de seis décadas depois voltei a percorrer os arredores. A casa do número 583 não existe mais e em seu lugar ergue-se um moderno escritório de advocacia com outra numeração. As duas casas vizinhas estão de pé e bem conservadas. Uma era o salão de cabeleireiro e residência de um casal; ele se chamava Lessa e tinha os cabelos pintados acaju. Do outro lado um bonito casarão; o morador era um senhor idoso com sobrenome Frade.

Devia ter alguma projeção política, o Governador do Estado na época, General Alexandre Zacharias de Assumpção, o visitava de vez em quando. E nós espiávamos da nossa janela. Do outro lado da rua as casas do médico Clarindo Martins, de um coronel do exército e a do Sr. Rubens Martins, que foi grande amigo de meu pai. Está por lá ainda a casa da minha professora de piano, cujo nome não me lembra mais.


Era simples por fora e quase humilde por dentro. Porta e janela, fachada azulejada, uma pequena escada que dava para a sala da frente onde estavam o piano e alguns móveis muito gastos. Tudo muito fechado e abafado. Para dentro acho que só tinha um quarto, cozinha e banheiro. Estava sempre sozinha, nunca recebia visitas, idade indefinida, muito magra, quase feia, com um sorriso forçado e permanente.

Uma vez a encontrei muito bem humorada e até arrumada – foi no Theatro da Paz assistindo uma apresentação do pianista e menino prodígio Arthur Moreira Lima, em temporada nas cidades do norte do Brasil. Ela me encarou dessa vez com um sorriso de verdade e acho que estava imaginando: Ah, se um dia eu fosse professora de um Arthur Moreira Lima! Pouco tempo depois parei de estudar piano.

A mercearia da esquina conserva o nome – O Combate, mas agora se identifica como casa de lanches e panificadora. Detalhe: na mercearia, no açougue e na padaria os proprietários e os empregados eram todos portugueses. Naquela época a política local era motivo de discussões acaloradas, causa de desentendimentos e até mágoas duradouras nas próprias famílias. Com a Revolução de 1930, chegou ao poder junto com Getúlio Vargas o chamado Grupo dos Tenentes.

Um deles, Joaquim Magalhães Barata, por ser paraense, foi contemplado com o Estado do Pará. Governou por várias vezes, foi Interventor Federal e dominou a política local por mais de trinta anos. Dono de inegável carisma e vocação populista tornou-se objeto de verdadeira veneração entre as populações mais humildes do Estado. Dizem que frequentemente usava de violência com adversários ou desafetos, se notabilizou também por despachos pitorescos.

Conta-se que uma professora do ensino público solicitou uma licença devido gravidez e recebeu o seguinte despacho: “Indeferido, gravidez não é doença, adquiri-se voluntariamente”. Outra vez o governo federal incomodado com as notícias das violências no Pará que já chegavam à Capital Federal mandou o Ministro da Justiça, Dr. Vicente Rao, ter uma conversa com Magalhães Barata. O recado ostensivo do Interventor: “Com Rao ou sem Rao comigo é no pau”.

Enfim tudo parecia possível e tolerável em um fim de mundo como o longínquo Estado do Pará, em um regime de exceção. Magalhães Barata é hoje nome de uma das principais avenidas de Belém e ainda recebe muitos elogios pelo alegado amor que diziam devotar ao povo de sua terra. Em 1945 com a deposição de Getúlio Vargas e o fim do Estado Novo promovido por militares, Barata e seu grupo ficaram durante algum tempo, muito pouco por sinal, afastados do poder.

Como representante dos militares vitoriosos o General Alexandre Zacharias de Assumpção, comandante militar da região, um desconhecido na política regional, assumiu durante um curto período o controle do Estado. Parece que tomou algumas medidas que agradaram os que não toleravam ou estavam cansados da política baratista, principalmente a classe média e a imprensa.

A verdade é que em 1950 foi eleito Governador do Estado e era ele quem visitava o meu vizinho Frade e a quem nós espionávamos pela janela. Em 1955 Magalhães Barata chegou de novo ao governo do Estado, agora pelo voto, e acabou falecendo durante o seu mandato provocando grande comoção popular.Revisitar a infância em Belém está obrigatoriamente associado ao Museu Emílio Goeldi de muitas manhãs de domingo e de saquinhos de amendoim torrado.

Tenho fotos minhas desde os três anos de idade passeando por lá com minha mãe e meu irmão. Na época o que mais me impressionava eram os animais: onças pardas e pintadas, antas, macacos, enormes corujas, o peixe-boi, centenas de tartarugas. Passeei por lá de novo. O setor dos animais está muito desfalcado apesar de um imponente jacaré com mais de três metros e das simpáticas cotias correndo livres por toda parte.

O prédio principal foi preservado e está muito bem conservado. As coleções de taxidermia, etnografia e arte marajoara não podem ser apreciadas atualmente, aguardam o fim de reformas em andamento para voltarem a ser expostas. Já o setor do parque botânico com as grandes árvores da Amazônia é extraordinário. Um enorme e precioso guajará, espécie que deu o nome a baia onde foi fundada a cidade, é a árvore mais antiga do parque, ele já estava lá e era adulto quando da abertura em 1895.

Recentemente, vítima da velhice e de uma ventania, teve alguns galhos arrancados. Foi cuidado com muito carinho pelos competentes profissionais responsáveis, fizeram até tomografia computadorizada, e está se recuperando. As imponentes samaumeiras com seus caules imensos, que em alguns casos precisam de vários homens para conseguir abraçá-los. Acho até que estas são um pouco menores do que outras existentes na cidade.


O mogno, ameaçado de extinção na natureza pelo comércio ilegal. A castanheira do Pará com sua altura espetacular, a vi de longe, seu entorno está bloqueado por outras plantas. Dirigi-me a um funcionário com a reclamação na ponta da língua, mas tive que ficar quieto. A razão do isolamento é a queda frequente de seus frutos, os ouriços, que podem pesar mais de um quilo e se atingirem alguém farão um grande estrago.

Fui informado da existência de grandes castanheiras em várias regiões do interior do Pará. Um exemplar, documentado no Município de Marabá, terra de castanhais, tem sessenta e dois metros de altura, quatro metros e meio de diâmetro no caule, idade aproximada de oitocentos a mil e duzentos anos. Estava lá na época das Cruzadas, é anterior ao estabelecimento de Portugal como reino independente.

A castanheira só começa a frutificar aos doze anos, sua semente de grande valor comercial é altamente nutritiva e saborosa, ela é certamente uma maravilha da natureza, do Brasil e particularmente do Pará. Pela idade do parque, o seu exemplar deve ter pouco mais de cem anos, e provavelmente com ainda muito tempo para crescer.

O calor de Belém é menos intenso que o do verão do Rio de Janeiro, mas persiste o ano inteiro e a umidade do ar, influenciada pela proximidade da floresta, é muito alta. O ar refrigerado atualmente está em toda parte: nas residências, em todos os carros, comércios, prédios públicos, hospitais, igrejas, teatros.


MATEI A SAUDADE DAQUELE CALORÃO PEGAJOSO,

A CAMISA EMPAPADA DE SUOR, EM UMA TARDE

TOMANDO UM DELICIOSO E APIMENTADO TACACÁ,

ÀS DUAS HORAS, ANTES DA CHUVA, EM UMA

CALÇADA DA AVENIDA NAZARÉ.




(*) Crônica de Rinaldo Carlos Carneiro, médico.
Autor do livro
A ÁRVORE DO CONHECIMENTO – UMA REFLEXÃO SOBRE AS CRENÇAS
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo. - Fevereiro 2013




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